*este texto foi publicado no Jornal Batista e em um jornal secular nos EUA.

Há tempos espero ouvir a voz de um bondoso pastor…

Por longos anos, enquanto ouvia a história da ovelha perdida na Escola Bíblica, pensava que aquela bolinha de algodão portátil teria deixado a companhia do pastor e de suas colegas por decisão prévia. Cheguei a julgar e presenteá-la com adjetivos um tanto pesados, como por exemplo, “burra”, afinal de contas, ela se meteu em uma fria e não lucrou nada com isso. Mas a gente cresce e passa a analisar histórias de outros ângulos – ou pelo menos, nos colocamos na “pele” de outros, além da personagem principal. É bem verdade que no contexto apresentado pela Palavra de Deus, a ovelha deixou o pastor e, por isso, se perdeu. O pastor era o próprio Deus! Jesus nunca erraria, nunca deixaria de cuidar daquelas que necessitam de sua orientação. Mas e se aplicarmos a história ao nosso contexto atual e olharmos para os pastores de nossas igrejas locais, teríamos tanta certeza assim de que a ovelha é a responsável por ter saído de perto do rebanho? Quem sabe suas amigas ovelhas lhe disseram palavras duras e fizeram questão de mostrar que ali ela não era bem vinda – seria um bom motivo para dar o fora, não? E se a voz do lobo soou parecida com a do pastor? Todos nós caímos de vez em quando…Ou, por fim, se o pastor tivesse deixado de prestar atenção nela? E se ele tivesse se distraído com a música que cantava, com as contas da produção de lã ou com o novo estábulo quase finalizado?

Não raras vezes tenho essa impressão, ou percepção, não sei. As pessoas chegam à igreja sujas, desanimadas e acabadas. Mas Deus, rico em misericórdia, prepara pastores para entregarem a elas mensagens abençoadoras, capazes de transformar o pêlo mais sujo em lã branca, sem nenhuma mancha! Então elas aceitam a Palavra, tomam um bom banho, recebem o apoio, o carinho, os sorrisos e a atenção dos pastores. Até…até um dia em que a secretária fala dos inúmeros afazeres do pastor e da impossibilidade deste atender o telefone, mas promete que vai agendar um horário – dentro dos próximos três meses! Até o momento em que, ao terminar o culto, o pastor sai às pressas, afinal de contas, a multidão o aperta. Até o momento em que você finalmente o encontra sentado no restaurante próximo a igreja, abre um sorriso e começa a conversar, ansioso por contar-lhe seus problemas e ouvir uma palavra confortante. Mas ele está com muita fome e não consegue lhe dar atenção suficiente, apenas algumas palavras: “é irmão…vamos orar”, e com um tapinha nas costas, se despede. E ali está você e mais algumas pessoas, “exaustas como ovelhas que não tem pastor” (Mt 9:36).

Já sentiu dor como essa? Presenciou tamanho cansaço?

Fico feliz em saber que a Igreja tem redescoberto os dons ministeriais. Há alguns anos atrás, principalmente em algumas denominações, só ouviríamos falar em pastores e missionários. Hoje, graças ao despertamento da Igreja para a Palavra como um todo, reconhecemos em nosso meio evangelistas, mestres, profetas, apóstolos e pastores! Entendemos que todos estes têm seu lugar na Igreja e que precisamos de todos operando seus dons. Alguns são chamados para liderar, administrar, dar direção ao Corpo, e não há nada errado nisso, pelo contrário, precisamos de bons líderes, cabeças pensantes e, de certa forma, corações “duros”, preocupados com as finanças, o retorno e a logística. Entretanto, o que temos visto são pastores abrindo mão de seu chamado para serem simplesmente pregadores! Damos graças a Deus pelos excelentes pregadores de hoje – com uma linguagem acessível a todos e exemplos marcantes, trazem vidas aos pés de Cristo. Mas de repente nos deparamos com uma igreja repleta de sermões excelentes e ovelhas desgarradas incapazes de ouvir a voz de seu pastor. Como isso pode acontecer?

Pregações à distância, conselhos sem pastoreio, orações sem mãos entrelaçadas, consolo sem abraço, perguntas que não aguardam respostas. Esqueceram seu chamado, sua paixão; esqueceram Sua chamada, Sua paixão. Não percebem que vidas transformadas, cuidadas e edificadas ainda é o maior negócio da Igreja. A sociedade contemporânea e as relações estabelecidas por ela nos levam a uma assimilação de valores anti-bíblicos. Um mega empresário pode não ter tempo para um almoço com seu amigo de infância; a diretora da escola prefere não dar ouvidos às idéias mirabolantes de um grupo de alunos; um marido esquece o aniversário de casamento por ter conseguido um trabalho extra aos finais de semana. Tudo isso é possível – embora não seja ideal. Entretanto, um pastor não ter tempo para suas ovelhas?

Quem tem sido referência para os pastores de hoje? Consigo pensar em uma dezena de nomes agora que, por questões éticas (ou falta de coragem), prefiro não mencionar. Mas o modelo deve ser Jesus e me assusta pensar que em algum momento deixou de ser! Se pararmos para analisar as Escrituras, inúmeras vezes Jesus atendeu as multidões mesmo cansado e passando por um momento difícil. Foi assim logo após a morte de João Batista! Jesus soube da morte dele, e triste, retirou-se para um lugar. Faríamos o mesmo, certo? Mas Jesus, o bom pastor, não conseguiu deixar a multidão de lado, compadeceu-se dela e a curou!

Não se engane. Ainda os temos por perto. Mas uma reflexão acerca dos valores e prioridades da igreja irá manter a próxima geração de pastores com corações abertos ao seu chamado de cuidar, aconselhar, edificar e preparar a Igreja. Veja bem, não apoio pastores obcecados por visitas e biscoitos amanteigados! Existe mais para ser feito e pastores não são meros visitadores. O fato de termos pastores em nossas igrejas comprometidos com a liderança não exclui o papel da igreja de amar seu próximo “mais próximo”. Também não admito pastores-conselheiros, que passam 12h do dia conversando com os irmãos e esquecem de preparar as pregações e acompanhar o que acontece nos ministérios. Tudo depende da estrutura da igreja, do número de pastores auxiliares e líderes, da quantidade de ministérios e mais uma série de fatores que influenciam diretamente o labor pastoral. Pastores de igrejas menores em número de membros acabam por acumular funções. São líderes, presidentes, professores, pastores, pregadores, divulgadores, e às vezes até mesmo tesoureiros! Obviamente que não terá tempo apenas para ser pastor – no mais puro sentido conotativo da palavra – entretanto, membros maduros espiritualmente ainda é o resultado principal de seu trabalho.

Será que as ovelhas têm encontrado pastores acessíveis e amorosos para guiá-las? Estas têm desfrutado de um tempo com seus pastores ou o único encontro entre os dois é no momento de contagem ao entrar no estábulo? A reflexão não tem o intuito de desanimar os pastores, nem mesmo de julgá-los. Eu não sou pastora e estou certa de que não imagino metade dos problemas, afazeres e pressões que estes passam. Mas fica a palavra de exortação e encorajamento, para que estes lembrem mais de seu chamado do que das atribuições posteriores colocadas sobre seus ombros. Está difícil continuar? Largue algumas coisas, abra mão de projetos, desmarque reuniões administrativas. Você pode delegar tudo isso, como fez Jesus, convocando seus doze. O que você não pode deixar de fazer é cumprir o propósito para o qual foi chamado. Deixe-as escutarem sua voz, acalmarem-se com seus conselhos, crescerem através de suas palavras sábias. Se preciso, pregue menos e pastoreie mais. Há um único propósito em nossas vidas – fazer o que fomos designados por Deus a fazer. Mostre às suas ovelhas que estas podem estar aflitas e exaustas por uma porção de motivos, menos por não ter um pastor.

Texto de Queila da Rosa

Retirado do blog: http://www.queiladarosa.wordpress.com