Esse título pode parecer uma loucura, mas muitos sofrimentos são para o crescimento e amadurecimento. Certa vez em li num livro do Philip Yancey algo muito interessante. Ele escreveu que as pessoas portadoras de hanseníase só são mutiladas porque não sentem dor. A dor é um sinal para algo que está errado, uma espécie de aviso. Por isso, em muitos momentos devemos agradecer pela dor para que não sejamos mutilados na alma sem perceber. Eu sei que é muito fácil escrever ou falar quando tudo está bem. Em situações de dor, angustia, sofrimento, na maioria das vezes, eu não consigo raciocinar dessa forma, mas quando olho para trás, consigo enxergar o caminho percorrido, os degraus subidos e o quanto os momentos de lutas e lágrimas serviram para o amadurecimento das emoções, da fé, da intimidade com o pai…

Existem dificuldades que são causadas por fatores externos: dinheiro, marido, filho, família, patrão… enfim , coisas que acontecem que nos desestruturam. E existem dificuldades internas: conflitos, erros, crises, problemas emocionais. Eu, particularmente, sou fortemente atingida por esses. Eles conseguem me abalar, me desestruturar grandemente. Os fatores externos me entristecem, mas não abatem. Os internos mudam a minha fisionomia. Quem me conhece percebe de longe. Não sei dizer se com todo mundo é assim.
Todo mundo possui limitações e crises internas que gostariam de vencer, de banir da vida para sempre. É tão bom olhar para trás e vê, nas etapas vencidas, que valeu a pena passar por tudo aquilo, que valeu a pena lutar. É bom olhar e ver o crescimento, a maturidade, sem esquecer, claro, do caminho que ainda existe mais adiante. Mas olhar para trás e enxergar que, durante todo aquele sofrimento, lutas e crises, Deus esteve contigo é bom demais e, melhor ainda, é poder ver que tudo teve um propósito e que Ele amou, Ele cuidou, ainda que parecesse distante, Ele estava lá.

Eu tive muitos problemas emocionais vencidos (e muitos a vencer). Quem me acompanhou e me conhece de verdade sabe disso. Já vivenciei muitas crises interiores, assim como todo mundo, não sou melhor e nem pior que ninguém, cada um sabe os conflitos e as tristezas que enfrentam. Não quero entrar em detalhes, mas durante quase 20 anos (eu tenho 27) da minha vida, eu vivenciei um conflito e uma limitação que parecia maior do que eu podia suportar. Sim, começou na infância, mas eu não dava importância, parecia normal. Mas fazia uns 14 anos que eu lutava contra isso. Antes que você pense a coisa errada, eu não sou homossexual e nunca me relacionei amorosamente com alguém do mesmo sexo. Mas isso não está em discussão no momento. Voltando ao assunto, esse sentimento, atitude, crise, limitação, não sei que nome dar, era grande demais, era forte demais, era algo que era me parecia impossível e era. Perdi as contas das noites que eu não dormi, das lágrimas que eu derramei, dos gritos que eu dei, das atitudes drásticas que tomei, das cartas que escrevi, das orações que eu implorei, da dor que meu coração sentiu, dos votos que eu fiz… Perdi as contas… só eu sei, ninguém mais. Mudei de cidade e lá estava ele. Eu achei que ia ser escrava o resto da minha vida e que o meu problema não tinha solução.

Mas, hoje, eu posso dizer que valeu a pena. Valeu a pena clamar, valeu a pena sofrer, valeu a pena ser sincera com Deus, valeu a pena expor… valeu a pena. Hoje, eu tenho outras etapas a vencer, mas quando eu olho o meu coração, a minha forma de enxergar, a minha forma de amar, a minha forma de agir, as crises que eu controlo, as exigências que eu não preciso, a necessidade que não me corroi, o amor que não é maior que o meu, o olhar que não é o mesmo… Eu só consigo dizer que Deus é Deus, não há outro.
Esse texto poderia ter sido escrito há bastante tempo, mas, aos poucos, é que a gente se dá conta do que Deus fez num passado distante, fez num passado próximo, está fazendo e ainda fará. Não há impossível para ele, basta o coração ta rasgado em sua presença. Com o coração quebrantado e exposto a Ele não há pecado que permaneça, não há trauma que não seja curado, não há vida que não seja vivida, não há paz que não seja sentida, não há crise que não seja superada, não há laços que não sejam quebrados, não há nada que seja impossível.

Olhe para trás como um incentivo de seguir adiante, pois o melhor de Deus ainda está por vir.