Desde que eu me casei e me tornei mãe, eu ouço a frase:

“A Débora, heim! Quem diria!”

Ouvir isso ficou absolutamente normal para mim entre os membros da minha família. Nesses últimos 15 dias, esses comentários têm sido muito frequentes de pessoas que me conheceram em épocas diferentes, em lugares diferentes, em situações da minha vida totalmente opostas. Pessoas me procuram para dizer que se orgulham da mulher, da mãe, da esposa que eu sou… Eu fico surpresa, porque apesar de estar bem mais madura, afinal de contas, a vida faz isso com a gente, eu sou a mesma menina, extrovertida, espontânea, escandalosa, sincera, espaçosa, que incomodava todo mundo. Sim, incomodava. Não só incomodava… Eu era excluída, humilhada, reprimida, mal interpretada, criticada pela maioria das pessoas que passavam pela minha vida.  Foram 17 anos de um tratamento doloroso e intenso com Deus nessa área da minha vida. 17 anos que eu vou tentar resumir nesse texto. Prepare-se, pois são experiências que eu nunca compartilhei assim de forma aberta.

A minha autoestima foi destruída, aos poucos, já na infância. Porém, não quero me ater a essa parte da minha vida.

Na pré-adolescência e na adolescência, eu sofri muito. Todo mundo ria de mim porque minha gargalhada era alta, porque eu era espontânea, porque eu perguntava 5 vezes a mesma coisa na sala de aula quando eu não entendia, porque eu falava tudo que eu pensava, porque eu sentava no chão, porque eu andava descalço, porque eu não fazia média com ninguém, porque se eu estava a fim de um menino, eu falava pra ele, porque eu dançava onde eu estava a fim de dançar, porque eu falava alto, porque eu não tinha limites… Eu ria por fora e gritava de dor por dentro. Eu queria ser amada e eu sabia que não era. Era zombada.

Com 16 anos eu me converti. Ninguém me convidou para ir numa igreja, nenhuma pregação me impactou. Deus me chamou. Eu estava em casa e disse: A partir de hoje, eu sou de Jesus. E fui à igreja. Pronto. Me batizei dois meses depois. Eu achei que lá eu encontraria refugio para as minhas dores e as pessoas me aceitariam como eu era. Infelizmente, estava enganada. Eu não tinha o padrão de crente; eu não falava como crente; eu não me comportava como crente; eu não ria como crente; só vivia como crente, mas para a “igreja” viver o interior não é suficiente, se o seu exterior não condiz com o padrão que eles impõem.

Num acampamento de adolescentes, eu passei esbaforida numa irmã, essas irmãs respeitadas e antigas na igreja, e acabei esbarrando nela. Ela gritou comigo e disse: ai garota, como vc é estabanada. Pede para Jesus te mudar. Aquilo foi a gota que faltava para o copo derramar. Eu me isolei naquele acampamento e chorei, chorei por horas. Escondida num canto eu dizia: Senhor, por que eu não consigo ser diferente? Por que nem você me ama? Como eu vou ser missionária assim? Eu não sirvo para vc. Até que o pastor Ricardo Guimarães, o pastor da igreja que eu era na época, me achou. Eu contei para ele. Quando eu entrei no quarto das meninas para dormir a noite, estava cheio de cartazes espalhados: “Débora Branquinho, nós te amamos.” Débora Branquinho, você é especial. “Deus te ama como você é”.     Gente, isso para uma menina de 16 anos que estava vivendo o que eu estava vivendo, foi impactante, mas não foi o suficiente para eu enfrentar o que eu ainda enfrentaria durante a minha caminhada. Eu não preciso dar detalhes, quem me conheceu na Igreja Batista do Pechincha, no Ministério Rios de Águas Vivas, na Igreja Batista Ebenezer e no CTMDT/Carisma ou em qualquer outra época da minha vida, sabe muito bem do que eu estou falando.

A minha maior experiência com Deus eu vou relatar agora. Eu não tenho como descrever todas as vezes que Deus se manifestou durante esses 17 anos para dizer o quanto eu era especial, qual era o meu chamado, e que Ele tinha me criado assim para um propósito. Eu fui chamada para amar. Amar é um dom que todos deveriam ter, é o primeiro mandamento, mas esse dom, Deus me deu em especial. E isso não é soberba, porque não é meu, é dEle. Ele me emprestou. Mas não há como dar aquilo que vc não tem. Então, eu precisei ter amor, para dar amor. Ninguém ama e ninguém consegue ser amado, se ela não tem amor.E é por isso que hoje vocês me enxergam de forma diferente. Porque eu me enxergo diferente, porque a minha postura com relação a mim mesma é diferente, porque não importa o que você pense ou o que você fale sobre mim, eu sei quem eu sou em Deus.  Mas esse trabalho de Deus começou, realmente, com um marco…

Fazia 15 dias que eu estava em Belo Horizonte para estudar no Carisma/CTMDT. As aulas ainda não tinham começado.  Os alunos ainda estavam chegando de toda parte do Brasil e do Mundo. Eu estava destruída. Completamente destruída. Sem chão, sem teto, sem amor, sem vida, sem nada. Mas, ninguém sabia…

Fomos para uma vigília no Tabernáculo (O antigo templo na Lagoinha, antes de existir o principal). Lá, eu de joelhos chorava, chorava… Até que uma menina saiu do louvor, que eu não lembro se foi a Sabrina ou a Graziela, me abraçou forte e cantou no meu ouvido:

“Aos olhos do Pai
Você é uma obra-prima
Que Ele planejou
Com suas próprias mãos pintou
A cor de sua pele
Os seus cabelos desenhou
Cada detalhe Num toque de amor

Você é linda demais
Perfeita aos olhos do Pai
Alguém igual a você não vi jamais
Princesa linda demais
Perfeita aos olhos do Pai
Alguém igual a você não vi jamais

Nunca deixe alguém dizer. Que não é querida
Antes de você nascer
Deus sonhou com você!

Foi quando o Espirito Santo me disse: Eu canto essa musica para vc. Eu te vejo assim. A Sabrina ou a Grazi (rs) cantou a música inteira, por duas vezes. Ali, eu tive a certeza: Deus me amava. E era tudo o que eu precisava. No final da vigília, lá pelas 5, 6 da manhã uma pessoa, que eu também não lembro quem, me abraçou e disse: Deus está te dando uma chave. Na hora certa, você vai saber utiliza-la.

Na semana seguinte, uma irmã, a Rogéria, chamou a mim e mais umas meninas (que eu tb não lembro) para dormir na casa dela. Exatamente uma semana depois. Eu havia guardado a experiência daquela vigília comigo. No meu coração.

Nós estávamos jantando na casa da Rogéria, rindo, conversando… quando a Rogéria virou pro marido dela e disse DO NADA, no meio do jantar…

– Fulano (esqueci o nome, Carlos, talvez), abraça a Débora. Ela precisa de um abraço de PAI. E ele me abraçou e eu chorei, chorei, chorei e a Rogéria saiu do lugar dela colocou a mão no coração e disse:

– toda mentira que disseram a seu respeito eu rejeito agora em nome de Jesus. Você é do Senhor. Você é querida, você é amada. Solte essa dor que está dentro do seu peito. E eu gritei, mas eu gritei MUITO alto. A Rogéria gritou na mesma altura e na mesma intensidade e nós duas caímos no chão.

Ela disse:

– Débora, sai dessa prisão. Sai desse lugar, desse abismo que te prende há tanto tempo. Usa a chave que Deus te deu. (A Rogéria não sabia de nada, ela não estava na vigília).

O ambiente era denso. Eu não conseguia levantar, eu não conseguia andar… As meninas me ajudaram a levantar, mas os meus pés estavam presos no chão. Foi quando a Rogéria, espiritualmente, soltou os cadeados que prendiam meus pés. Eu não só andei, como corri e pulei e gritei. E foi quando a Rogéria disse:

Deus está mandando colocar uma musica para você…

E ela ligou o CD na mesma música. NA MESMA MÚSICA. As meninas fizeram uma roda, e eu deitei no colo delas. Todas elas cantaram para mim.

E a partir dai, MUITA COISA rolou. Muita cura interior, muitas experiências como essas, algumas até mais fortes, mas eu conto uma outra hora.

E lembre-se: Deus te ama como você é!